Morreu de arte… Edie Sedgwick.

 

Introdução:

Todos sabem que a Arte é a minha maior paixão. Entendo a cadência, o ritmo, a inquietação, a penumbra e os labirintos que levam a que uma obra se torne imortal quando se funde com o seu criador. Sinto um fascínio infantil e febril por todos estes processos e nada, rigorosamente nada, do que é verdadeiro e alcança a imortalidade… me deixa indiferente.

 

1ª acto

Um ser frágil, hipocondríaco,  maníaco e obsessivo. Perdido num desfiladeiro de arranha céus, entre a incapacidade de qualquer intimidade e uma percepção invulgar de que arte é comunicação e como tal era necessário fazer a fusão com os avanços excessivos do seu próprio tempo. Alguém que se experienciava a si próprio através dos outros e por essa razão mais exposto e explorador das identidades que o rodeavam. Um vampiro frágil e sedutor, capaz de criar uma teia que se tornou um dos maiores mitos de uma época de extremos.

 

2º acto

Nasceu num lugar inóspito entre poços de petróleo, família numerosa e problemática. Cresceu na dimensão da sua individualidade, tão grande quantos os sonhos. Viveu no seu próprio labirinto, intenso, excessivo. Deu-se e depois deu-se outra e outra vez e acabou a dar-se. Para que os outros pudessem viver e sentir através dela, talvez para se atenuar ou apenas reconhecer transversalmente nas emoções de que se tornou uma espectadora. Aparentemente alheada.

Há pessoas que criam em função de outras pessoas e há outras que se dão a criar, e tudo acontece como se os dias não acabassem e as profundezas, quando alimentadas, não tivessem a capacidade de envolver tudo o que as rodeia.

 

3ºacto

Edie morreu de arte.

 

Post scriptum:

Apesar de ter sido considerada (apenas) uma das musas de Andy Warhol.

Edie Sedgwick era já a musa dos tempos modernos, com o bom e o mau que se carrega ao ser considerada uma musa.

A sétima de oito irmãos, que viviam entre fontes de petróleo, com o mesma velocidade que o seu sangue percorria as veias da curiosidade pelas artes.

Dançava sempre só, precisava dela própria para sentir os outros, ou talvez dos outros para se sentir, simplesmente.

Não conhecia a sua casa, mas tinha 14 divisões e nenhuma era suficiente para a mulher que lá pernoitava, às vezes. Amava sem restrições, tudo.

Os 15 minutos de fama, oferecidos pelo companheiro, amante, e egocêntrico Andy Warhol transformaram-na numa obra em movimento durante 6 anos.

Cabelo pintado de prata e performances na Fábrica, os olhos no chão viviam carregados de lágrimas com sabor a champagne e drogas.

Consideravam os seus calafrios e tremores sedutores e as câmaras conheciam cada reentrância do seu corpo que com o tempo foi perdendo a vergonha e o pudor. Afinal era uma escultura humana.

A fraude de uma vida artística com os holofotes apontados para outros lugares, onde Edie se escondia no escuro. Um cupido deu-lhe um tiro.

Precisava de beber, fumava demasiado e consumia todas as drogas disponíveis na época.

O “glamour” da vida boémia ia aos poucos ser o prenuncio da sua morte. Jovem. Jovem demais. Entre a POP, a serigrafia, o cinema, as latas de sopa de tomate Campbell’s empilhadas, e todos os seus trémulos passos devidamente documentados.

Fez a Vogue e a Life, mas Edie queria um arco-íris.

“Just like a woman” foi o tema de Dylan para Edie, logo após se ter afastado de Warhol. A música ficou. Dylan casou-se escondido do amor de Edie. Mais desilusão.

Morreu sem nada, no mesmo ano em que se casou com Michael Post, em 1971.

Indeterminada/acidente/suicídio foi a causa assinada na certidão.

 

 

Ainda hoje Edie Sedgwick é um mistério que ficou por resolver, apesar dos hábitos de vida errados transmitia um olhar doce.Irresistível, honesto.

Não sobreviveu aos artifícios e alcançou a imortalidade.

 

Curiosidade: segundo a informação disponível em 2010, Michael Post, trabalhou num posto de Correios de Santa Barbara onde sempre procurou proteger o seu anonimato.

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