Desabafo: estava atrasada para apanhar o comboio.

 

Em traços gerais estava atrasada para apanhar o comboio.

O horário indicava que a partida era às 18:47 e pelas 18:30 apanhei um táxi.

Acontece a todos, por vezes não há tempo para tudo e ele escapa pelas palavras de despedida e agradecimento no workshop que fui convidada a dar no Porto (num post brevemente).

Resumindo, não gosto de chegar atrasada, preciso do meu tempo.

Por isso segui em passo acelerado, mais depressa do que conseguia e descobri da pior maneira.

O meu vestido prendeu-se e ainda no ar vi todo o escritório portátil tal como os pertences pessoais (carteira, mala, bagagem, etc) a ficarem literalmente em exposição por todo o patamar que me levava à linha pretendida.

Caí sem apoio em cima de um dos joelhos.

Até agora … nada de novo, acontece a todos.

Ainda no chão frio e molhado (chovia copiosamente), olhei para os lados ainda na aflição de juntar todas as minhas coisas.

O que vi foram só passos, uns perto outros mais afastados que faziam uma espécie de gincana entre o meu corpo com o joelho inchado e as minhas “tralhas”. Deu-me a sensação que passaram minutos, o barulho dos passos era imenso e mais rápidos ainda. Nem uma mão, nem uma pergunta. Só os passos.

Finalmente uma senhora de 70 anos dirige-se a mim, preocupada, e com a minha carteira. Estava acompanhada pela mãe que teria perto dos 90 anos.

Foi a única pessoa que parou.

Olhei-a com carinho. Disse-lhe para ir andando para não perder o comboio também. Com calma e a pouca agilidade que a idade trás tentou levantar-me.

Apeteceu-me chorar.

Não pela queda, ou pelo atraso, ou pelas minhas coisas espalhadas.

Afinal entre os passos robóticos em contagem decrescente, ainda existem pessoas.

De carne e osso, com coração, com alma, com amor, com vontade de ajudar. Verdadeiras.

Foi com calma que nos dirigimos as três juntas para a linha e sim apanhámos o comboio em carruagens diferentes. Curiosamente fomos em silêncio e com um sorriso no rosto.

Esqueci-me de lhes perguntar os nomes.

Mas nunca mais as vou esquecer.

Mais uma vez obrigada.

 

 

Raquel

 

 

 

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