Hoje conheci um Homem bom perdido num mundo cada vez mais mau.

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Tenho sempre o tempo contado, 20 minutos para almoço, contados os passos desde a 39A até ao local do costume.
Hoje, tinha de ir aos CTT, passei pela mão estendida de alguém. Lembro-me de ouvir a palavra moeda, só! Não foi indiferença que não me fez parar, foi esta velocidade absurda dos meus dias.
Quando saí… a mesma mão estava estendida no chão. Como todo o corpo. Desarmado e desamparado. Inerte.
Chamei, perguntei se precisava de algo, se podia ajudar de qualquer forma.
Num murmúrio, quase sem ar, apenas ouvi “Só quero descansar”.
Resolvi almoçar ao lado de um corpo que passou a ter nome e identidade “O Sr. Afonso”.
O Sr Afonso só queria descansar.
Não me impus mas, atenta, aguardei até existir algum sinal. Nada.
Pela rua passaram dezenas, senão centenas de pessoas.
Houve quem olhasse de lado, quem fez de conta que não viu, quem olhou 2 vezes, e quem até tropeçasse no corpo do Sr. Afonso. Em comum? Todos seguiram o seu caminho.
Não houve 1 pessoa que se questionasse se aquele homem precisava de ajuda. Se existia!
UMA!!
Passaram mais de 20 minutos.
Nada!
No local do costume, onde almocei junto do Sr. Afonso, já me tratam pelo nome.
Eu só tinha na garganta e nos olhos, em lágrimas, a resposta, “Só quero descansar”.
Foi-me questionado se estava tudo bem.
Não, não está. Vou explicar porquê: está um homem inanimado há mais de 20 minutos no chão e ninguém faz nada, pior … evitam. Odeio este mundo. Não é o meu.
Por coincidência chegava ao café uma enfermeira a quem pedi ajuda.
A senhora do quiosque ligou para o INEM, a primeira pergunta é se era realmente uma situação urgente, a segunda se o senhor estava a obstruir a via!? A obstruir a via?
Repito, a obstruir a via?… (Há frases que eu gostava tanto de nunca ter escutado)
Não foi enviada a ambulância.
Foi ao segundo telefonema que vieram. Tem diabetes, descobri na vizinhança, podia ser uma crise.
Pediram-me para ficar junto dele e assim fiz.
Coloquei-o de lado, como indicação dada ( com a ajuda de um rapaz ) e o homem de 60 anos olhou para mim e foi isento nas palavras:
Sabe eu não sou desses.
Nenhum de nós é, respondi.

O Sr. Afonso foi realojado pelos menos 3 vezes, nunca conseguiu ficar, tem a alma triste, tão triste que não reconhece o espaço.
Foi técnico de saúde com louvor, perdeu os pais (a única família) e um AVC trouxe-lhe mazelas para sempre.
Puxa pela perna enquanto se coloca numa posição mais confortável. Viveu mais de 10 anos na rua, hoje é a sua casa, a sua ausência, a sua terra, a única família que reconhece e o reconhece.
Tem os medicamentos, para diabetes, em dois sacos que carregam, mais que as suas mazelas, a sua vida.
Só para mim, abriu um jornal que ainda estava dentro de um plástico que o selava, era o seu tesouro, a única moldura de um passado do qual não sobrou rigorosamente mais nada.
Ali, impresso num papel desgastado, estava o Sr. Afonso com todos os apelidos. Barba feita e banho tomado.
Mas o olhar não engana, porque a verdadeira doença que feneceu o Sr. Afonso é a mesma que muitos de nós padecemos.
Não nos enquadramos, deixamos de perceber e vamos definhando até desistir e sucumbir ao cansaço.
Ele desistiu. A solidão e a sensação de abandono tomaram conta das horas em que ainda respira. E não há medicamentos para a sua doença. A cura fugiu-lhe.

A ambulância chegou, e como técnico de saúde reconhece tudo.
Até o olhar “inflexível” da enfermeira do INEM quando ele lhe explicou que conhece bem o procedimento porque trabalhou na mesma área… afinal até poderiam ter trabalhado juntos se a vida tivesse sido outra.
A mágoa de quem não acredita nele, porque já não existe o ele, rompeu-me o coração.
Na alma do Sr. Afonso só reside dor, enorme, sem escala que defina o tamanho.
Qual será a dor que habita os que passaram por ele?
Quem olhou de lado, quem fez de conta que não viu, quem olhou 2 vezes, e quem até tropeçasse naquele corpo.
Quanto a mim…
A alma do Sr. Afonso fez a diferença toda.
A alma do Sr. Afonso merece realmente descanso.
A alma do Sr. Afonso é a alma de um homem.
Hoje fui inundada por uma emoção que não tem tamanho.
Hoje conheci um Homem perdido num mundo cada vez mais mau.
Mas meus amigos…
Hoje conheci um Homem bom.
O Sr. Afonso.

PS: Não foi levado para o hospital, e assinou um termo de responsabilidade com o conhecimento da polícia. O nível de diabetes estava bem, e não estava desidratado.

 

Raquel

3 Comments
  1. Obrigado….não por mim mas pela lição de humildade, compaixão e cidadania! Comovi-me e revi-me também neste mundo cada vez mais individual e sempre que se ajuda alguém ainda haja quem olhe de lado…Obrigado.

  2. Obrigada por ter partilhado a história do Sr Afonso…É com um nó na garganta que escrevo.Hoje as pessoas jà não são sensíveis.É muito triste….As pessoas são egoístas…
    Beijo e obrigada Raquel.

  3. Infelizmente existem cada vez menos pessoas que se interessem pelos “Afonsos” que existem nas nossas cidades… Agradeço a sua história e Felicito a pelo seu coraçao!!

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