As cartas do meu marido.

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“Começou nos olhos.

Desculpa o descuido, no silêncio é mais puro e mais verdadeiro.

Vou recomeçar.

Tudo começou no silêncio que nos mostrou, pela primeira vez, uma espécie de mundo com outra família, algo proibitivo e ao mesmo tempo imaculado para nós.

Sempre soubemos que somos o que a vida nos deu, e o simples facto de existir uma existência para além disso trazia agarrado à pele uma espécie de pecado, uma impureza muito própria e infundamentada próxima da retrógrada leitura das regras femininas. Porém real, interior e de alguma forma castradora.

Valeram os olhos. Daí a antecipação do olhar no inicio da descrição.

Tudo começou no silêncio e ganhou existência no olhar. Espero que gostes mais desta formula, sei que gostas pois aprendi a entender-te tão bem.

Foi o olhar que nos tornou cativos de um futuro, como os náufragos que aspiram à eternidade no fundo de um mar.

Era natal, estávamos pior que sós, fazendo fé da sabedoria popular e daquela que o futuro nos reservou.

Fomos apresentados e não proferimos uma palavras, mas olhámo-nos. O silêncio assustou-nos quinze anos e o olhar mostrou-nos o infinito, isto para evitarmos a eternidade que tem aquele olhar de perfeição que tanto nos incomoda, acreditamos mais na imperfeição, que resumindo tudo… É a nossa dor e a nossa delicia.

Por ora, vamos ser mais realistas e explicativos, porque pode ser que assim alguém nos entenda.

Estavas vestida de branco e eu, nem sei, faz parte de mim dar mais valor ao que vejo que ao que trago, eu sei que sabes e que não te importas, por isso vou continuar.

Estavas vestida de branco, sentada. Frágil, desconcertada, só, triste e, desde que entrei pela porta de madeira, aflita.

Para que também saibas, eu estava igualmente só, igualmente frágil, igualmente triste, em pé e fiquei igualmente aflito. De repente mil vidas passaram pelas minhas pernas e nenhuma tinha força e aprendizagem suficiente para saber viver aquele momento. Mas cada vida tem a sua razão que nos arrebata com a mesma força que bate, ali soube, imediatamente e irreversivelmente, qual era a razão desta, e tudo, rigorosamente tudo, o que isso trazia agarrado.

Depois fiz-me valer de todos os recursos que tinha disponíveis para não te voltar a ver. Que tonto, como se tal fosse possível. Ficas a saber que desde então a dificuldade foi ver outra coisa. Talvez por tudo isso tu para mim sejas o branco e tudo o que isso acarreta. Quase como um dia me disseram, despi-me de tudo só porque te vi de branco. Sorte a minha que ainda hoje te vejo e de branco.

O resto é isso mesmo, uma sonora gargalhada de natal que se tatuou entre a tua profissão de palco e o meu jogo de esconde e esconde nos bastidores.”

João Murillo

3 Comments
  1. Há amores que começam antes de começar e não acabam. Porque estava escrito nas estrelas, ou nos olhos ou no branco. Estava escrito. O vosso. Gosto muito de vocês. Tu sabes!

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