Há pessoas que não são pessoas, são armas.

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Arre, como me inquieta e desgosta escrever tanto e tantas vezes sobre coisas que   têm destruído o meu/nosso Mundo. Mas é inevitável, quando as emoções tomam conta de nós, não deixam espaço ao alheamento, ou à capacidade de abstracção.

Não é possível escrever sobre coisas que são do meu agrado, quando sou esmagada pela dor do que me circunda.

Será que o mundo vai voltar a ser o que conhecíamos ?

  • Não, não vai!

Na realidade já não o é há muito tempo.

 

Este fim de semana, dei por mim, a percorrer as horas numa reflexão sobre o que me rodeia, sobre as causas, as consequências, o cheiro a guerra e os tumultos, a violência que nos chega de todos os lados. Depois comecei a fazer um exercício de memória em que ia retrocedendo cronologicamente na minha vida. Cheguei a um pensamento que convosco quero partilhar, sei que há muitos que se vão rever nele, e isso é bom, mas seria mais importante tomarmos TODOS a consciência que está na altura de cuidar, mimar e de nos lembrarmos da frase do poeta “(…) Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho (…)”.

 

Cada vez mais acho que tudo começou a desabar quando se deixou de brincar na rua, isso mesmo brincar muito e na rua, quando a nossa aprendizagem comum começava nos jogos entre miúdos que iam crescer e tornar-se adultos. Essa experiencia ensinou-nos que todos os problemas, entre nós, se tinham que resolver ali e pelo dialogo, às vezes com alianças e moderadores. A verdade é que não havia brigas insolúveis, porque todas eram reais e as pessoas comunicavam “cara à cara”, o que não deixava muito espaços para intolerâncias e rupturas insanáveis. Na televisão as maiores aproximações à violência eram raras e por isso até nos desenhos animados a “procura do Marco pela sua Mamã”, nos marcou tanto.

Depois iniciou-se o “mundo virtual” e dos jogos sem interacção presencial, a violência dos jogos e a forma como começaram a tornar tantos jovens reclusos das quatro paredes dos seus quartos, e as ruas desertas. Desertas de correrias, de joelhos e cotovelos esfolados, de segredos, de sussurros, de gritos, de conversas, de lágrimas, de palavras e silêncios entre pessoas, de gargalhadas… enfim de partilha.

Os Pais foram ficando cada vez mais horas nos trabalhos e mais longe de nós. Muitas vezes até deles próprios e talvez por isso haja cada vez menos Pais e sim Mãe e Pai.

A seguir tudo ficou ainda pior, o Mundo financeiro, essa figura abstracta, onde se fala de mercados, ratings, cotações, produtos e também produtos tóxicos, dinheiro, títulos, dívidas soberanas e outras palavras que foram invadindo e monopolizando a nossa linguagem, começaram a tornar conta de todos nós. Na realidade começaram a secar tudo à sua volta e as pessoas, cada vez mais, vão deixando de existir. Como se o mundo não fosse mais as pessoas e os outros seres vivos que vivem nele. Claro que quando o Mundo passa a ser só números, não poderá nunca mais ser aquele que conheci. As pessoas se não fazem parte da equação, nada de bom pode acontecer, é o mesmo que estar a impor uma não existência a alguém que respira.

Não estou a julgar, estou a constatar.

Nada, nada, nada justifica o que temos assistido… Tal como nada, nada, nada, justifica tantas coisas erradas que aconteceram na história da Humanidade.

O que mais me dói é não se utilizar a aprendizagem de ontem para melhorar os dias de hoje, não creio que se vá a tempo. O tempo da prevenção já passou. Estamos num cenário em que algo tem de ser feito para parar de vez com esta cultura de medo e de morte.

Sempre disse que somos todos só pessoas, hoje não o consigo dizer, porque há pessoas que não são pessoas, são armas.

Espero que se consiga algo para que o medo não seja o nosso futuro, eu tudo irei fazer para que o meu não seja. Mas confesso que tenho medo, muito medo do que está a acontecer.

 

Raquel

 

 

 

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