A umas horas dos 40.

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Já em fase de horas. Já passaram os dias e os anos.

Sinto que a vida me capturou numa armadilha.

Ofereceu-me um 2015 que foi muito. Muito em tudo, no bom e no mau. Em todos os espectros, para confirmar o que me rodeia, os vários tipos de amor que existem e o sofrimento e a delícia inerentes a quem ama. Perto e longe de mim, foi tudo intenso.

Não consegui ficar indiferente, aquele exercício que eu fazia tão bem. Tive de falar e outras vezes gritar para ser ouvida. Pedi ajuda sem rodeios ou sinais mudos, e abracei-me sozinha quando foi necessário.

Sinto que a vida me pregou uma partida, e que eu não ia cair nela, mas eu andei até ao limite e afinal vou fazer 40 anos. Honestamente não estava previsto nos meus projectos.

Não me levem a mal, mas as pessoas deixaram de ter idade para mim. Muito menos números pomposos e redondos como os 40, 50, 60, 70, 80, 90.

Reconheço a juventude a viver em corpos envelhecidos e idosos de cabeça, que teimam em envelhecer todos os seus membros.

Lembro-me do dia em que a minha mãe fez 40 anos.

Houve festa em casa nessa noite. E estava tão bonita. Sentada no banco de veludo com um vestido preto e dourado, longo, esguio que cobria o seu corpo muito magro e que condizia com os seus cabelos louros. O bar tinha os vidros encarnados iluminados a fazer pandã com o seu baton de sempre (ainda hoje), e tornava a sua pele ainda mais pálida.

A minha mãe estava feliz, ria com os ombros descontraídos e com a cabeça para trás. Lembro-me como se fosse hoje. Na mão comprida de dedos finos segurava um cocktail e um cigarro. Foi a única vez na minha vida que vi a minha mãe a fumar. Era ela o centro das atenções, sem ter de se esconder na sua tão típica timidez.

E é isto, a vida permitiu que eu vá fazer daqui a umas horas 40 anos, lembrar-me dos 40 anos da minha mãe e sentir que ela não vai voltar a fazê-los. Vida, estou a falar da minha mãe!

E apesar de não perceber a idade porque o meu tempo sempre foi diferente, é esta finitude que me chateia. Dos números, da matemática, do tic tac tic tac

Quando finalmente começas a domar as emoções com (alguma) maturidade, colocam-te na testa o rótulo de um número. Que armadilha.

 

Raquel

 

Imagem de Carlos Ramos 2015

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