Sobre ontem no meu FB pessoal.

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Nunca soube explicar esta sensação.

Parece maior que eu, e por vezes chego a acreditar que me sufoca.

É uma tristeza que assumo com a clareza de que não me permito disfarçar mais.

O dia correu bem, a família está boa e de saúde, a sopa de peixe que o marido fez soube a amor, a cama está feita, a Stella quer brincar, e o quarto quente. Aparentemente tudo bem, óptimo diria.

Menos eu.

Não aprendi a desligar, não sei como se faz, e vivo nesta intensidade que sou eu.

Vi uma senhora com 70 anos a pedir na porta do supermercado. Estava frio e todos passaram. Não pedia dinheiro, queria ovos e Nestum de Mel para a tia acamada.

Vi um cão a passar na rua a correr, levava trela e dirigia – se para a estrada. Ninguém reparou.

Vi o taxista a gritar com a miúda que ficou com a cara rosada nitidamente porque não tem prática a conduzir. E isso não faz mal.

Vi um senhor a tentar pagar uma conta da água no MB e não tinha crédito suficiente. Vi os seus olhos.

Vi a caixa da emel que só me faz lembrar a slot machine de um casino velho e bolorento, engoliu as moedas para amanhã. Que não tenho a certeza que existe.

Vi as pessoas a chegarem tarde a casa. Vi os seus movimentos, ombros caídos e passos arrastados.

Eu trouxe um pouco de todos eles. Vivem comigo.

Chego sempre assim, com as estorias nas minhas algibeiras, pregadas ao meu corpo, coladas à minha alma.

E eu, não sei desligar.

R.

2 Comments
  1. Vi uma reportagem do Vaticano e uma declaração do Banqueiro responsável pela conta da Santa Igreja deixou-me a pensar. Segundo ele, só quem tem muito dinheiro faz a diferença : consegue combater a pobreza, apoiar causas nobres, etc… Ou seja, ele defendia que o Vaticano precisava ser rico, para poder fazer o Bem que o Papa Francisco tanto prega ( adoro este Papa)
    Em parte concordo.
    Mas também acho que a ação de cada um também faz a diferença: pode não se ter muito dinheiro mas basta reparar, dar atenção e haverá empre alguem a ver e ficará a pensar: que gesto bonito! E se calhar, com sorte, replica-se o gesto, a bondade..
    Pois é Raquel, a vida é injusta e triste para muitos, mas vale a pena escrever textos desres e partilhar esses sentimentos…com certeza fará a diferença e tocará no coração de alguém.
    Bjinho
    Nélia

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