CASA de João Murillo

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Entrava-se em mim por um jardim cuidado, cheio de plantas e duas arvores que cumpriam os ciclos das estações. Três degraus antecipavam uma varanda que preenchia toda a minha face. A porta bocejava e ao fazê-lo soltava um meigo ranger. Dentro de mim havia várias assoalhadas, repletas de objectos, todos eles com uma história para contar. O jornal renovava-se todos os dias, enquanto a água se entornava por tantos ralos, todos distintos. As paredes, caiadas, eram decoradas junto aos interruptores por dedadas que cheiravam a rua, ou guloseimas. Havia um som constante, inaudível, que em nada se poderia assemelhar ao silêncio. Tudo, irremediavelmente, cheirava a gestos e tinha a temperatura de corpos sãos.


Comia-se e digeria-se até voltar a sentir a sensação de fome. Despertava-se e adormecia-se. Sonhava-se e tinha-se pesadelos. Chorava-se e também se ria. 


Em mim, entre tantas paredes e janelas e portas, mais do que um motor marchava numa cadência, compassada, feita de tantos ritmos alternados.


Tenho, à minha porta, uma floresta de ervas que nasce da maneira que quis. Desconhece qual a estação do ano em que está. Sorve a água quando existe e passa sede durante a maior parte do tempo, mas nunca interrompe o seu processo de crescimento, ocultando, progressivamente, todos os vestígios humanos que ali se encontram.

Há uma porta, escancarada, enfaixada num varandim, descuidado, ocupado por seres rastejantes que aqui proliferam. Tenho muitas assoalhadas, pouca mobília e nenhum objecto. Nas assoalhadas, onde outrora houve dedadas junto aos interruptores, existe agora uma mancha uniforme que ocupa quase todas as paredes. As mobílias, cobertas por lençóis brancos, conseguem ser mais leves que o pó que se debruça sobre elas. Os objectos, cheios de significado, foram vendidos a retalho e nunca pelo melhor preço.
Os canos e louças desconhecem o que é a água. A bem da verdade não é desconhecimento é esquecimento, falta de memória.
Há silêncio e crostas caídas num chão que não range, que não sabe ranger.
Quando, amanhã, quiserem chegar até mim terão que passar um terreno baldio e árido, subirão um dos três degraus que ali existiram. Depois saltem por cima do enorme buraco que as tábuas da varanda abriram quando tombaram, derrotadas, no chão.
Abram uma ranhura que vos sirva de porta.
Lá dentro haverá só uma assoalhada, mas será mais alta. Irá do chão, passa pelo que resta do telhado, e terminará nas nuvens que me darão sombra. Não haverá nada mais, para além da decomposição progressiva. Restos. Pedaços de cor, perdidos. Fragmentos que se soltam e se ocultam quando se dissolvem na terra.
A luz entrará mais pelos múltiplos rombos do telhado e brechas nas paredes que pelas antigas janelas agora preenchidas por tijolos e cimento. Estarei espartilhadada por cintas, vigas de aço que me vão cerzir pelas pernas, pela cintura e pelo tronco.
Aí vão voltar a escutar a ausência de som que nunca será silêncio.
Eu serei a ave debruçada na última telha do que resta da chaminé.

Quando o bulldozer chegar, abrirei as asas e posso confessar que não voarei para longe.

João Murillo

Imagem de Carlos Ramos

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