Dizem-me que são 10 anos, e eu acredito.

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Na realidade nem sei como começar, porque o inicio para mim não teve tempo. Só cheiros, olhares, entrelaçar de mãos, um pescador no alto da rocha com o rosto marcado pelo sol e a sabedoria que antecipava a mudança dos ventos, as gaivotas em planos dos anos 80 da RTP, cerejas, sal nos lábios, areia fria nos pés depois de secar aquele aspecto panado. Gargalhadas das muito altas sem vergonha, olhares incomodados com a nossa felicidade, o caminho para o pequeno-almoço percorrido às cavalitas pelos corredores de um qualquer espaço, segredos parvos com provocações ainda mais ridículas, sempre atrasados para tudo e todos, a nossa casa, em atelier, carregado de tintas e pigmentos, a confusão de tanta simplicidade e o deslumbre da “Tinhas” arrebatada por tudo e sobretudo por ele. Tantas saudades dela, nunca irá desaparecer de nós, será sempre nossa e nós dela de onde quer que ela nos guarde agora.

O João sempre me disse que estamos colados. Eu acredito que sim.

E continuo sem tempo… podia ser ontem ou há uns minutos atrás.

As pessoas adoram fazer balanços, e eu só os faço na altura de pagar às finanças.

Dizem-me que são 10 anos, e eu acredito.

Pedem-me receitas, ingredientes, perguntam-nos como se faz, como nos rimos quando as coisas nos correm menos bem? Como nos rimos quando as coisas correm mesmo mal?… Como conciliamos as agendas, como passamos tanto tempo juntos? E com o João é sempre tudo muito, mesmo! Parece que vive para nos arrancar um sorriso e um momento bom. Como faço quando o meu marido vai sair com os amigos e eu fico em casa? Feliz por ele ter o seu próprio tempo e espaço, e sei que me vai acordar ao chegar, com mimos, guloseimas das nossas e as histórias por contar.

Como celebramos a vitória de estarmos só a ver o mar?

E eu não sei responder. É mesmo assim, foi e continua a ser.

Dia a dia, todos os dias. Ele com a sua liberdade, e eu que a equilibro.

Se há arrufos? Dias de amuo, má-disposição, olhares de lado? Claro que sim!! Não será esse um dos truques, ou ingredientes, ou poção mágica que tanto me perguntam?

Não sei. Não há respostas.

É assim. Há sempre uma saudade mesmo quando ele está ao meu lado.

É assim. Só nós os dois.

Sei que hoje é fácil sermos criticados cada vez que expomos coisas da nossa intimidade. Advirto que não é esse o meu objectivo.Este é um desabafo e uma celebração.

Há palavras só nossas, mas as palavras entre nós… não ficam por dizer.

 

Raquel

 

 

 

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