Um dia de cada vez: as minhas férias.

IMG_20170722_211824_563

 

Escrevo agora porque passou o tempo necessário para conseguir fazê-lo… os dedos reabituam-se ao teclado (é como andar de bicicleta).

Quem me conhece de perto, sabe o sofrimento que sinto quando é o momento do regresso das férias. Sim, escrevi sofrimento.

Não ligo nenhuma á passagem de ano/s, aos dias que fiz 20/30/40 anos, ou todas aquelas datas em que a maioria das pessoas ficam com o sentimento de que algo tem de mudar. Fazem resoluções, pedem desejos, tomam decisões que estavam adiadas, mudam, alteram, existe a ânsia de transformar algo.

Pois bem, eu sou assaltada por tudo isto numa versão dramática e exacerbada (confesso) no final das férias. Provavelmente estão a questionar para que paraíso fui para me sentir assim… E eu respondo com o maior orgulho: o mesmo de sempre.

A sul com todos os elementos da família. Para o nosso abrigo onde a simplicidade é o meu maior luxo. E aqui o mundo é tudo o que eu queria que durasse para sempre. Todos os problemas passam a ter uma importância relativa, a falta de acesso à televisão e às redes sociais ajudam, não tenho tempo…porque este é o tempo bom.

Estão lá todos, e somos só nós.

As cores rompem as lentes em ultra-violetas, todas as manhãs, com o sussurro dos primeiros que madrugam. A tijoleira do terraço queima os pés, o branco da cal é luminoso, a paz religiosa inunda a casa. A luz rompe em todas as divisões como uma brincadeira de contrastes, por vezes quieta e serena outras feroz e alegre. Da cozinha o cheiro a cevada e de fatias douradas. Ainda são 9 da manhã, e já a Stella nada furiosamente no azul transparente da piscina. Agarro as cerejas na palma da mão, sento-me e respiro o mesmo ar dos melros e das gaivotas. De uma forma tão profunda que me sinto cheia.

Aos 41 anos continuo a levar só um lenço e os protectores para a praia. O meu marido trata da água e das peças de fruta. Faço o mesmo trilho desde os 14 anos, agora com uma família maior. Tenho o cabelo desgrenhado e as sardas no nariz voltam a aparecer como sinais de que aquilo é que está certo. Na praia consigo rir de tudo e de nada. O João chama-me Mogli, o menino selvagem, com carinho. Adormeço com as conversas dos vizinhos de sempre, do sentido de humor único do João, e o som das ondas a bater nas conchas embalam-me durante mais uma hora.

O horizonte com nuances que vão do azul petróleo ao verde cristalino volto a reconhecer que as rochas estão no mesmo sítio. Pego na prancha de paddle e percorro todos os recantos que só alguns sabem que existem, os cardumes de peixes passam por mim e perco-me durante longos minutos com aquela curiosidade que só as crianças têm.

É tanta vida que me rodeia.

O churrasco com pinhas que vamos apanhar está pronto pelas 20 horas. E somos todos na mesa, nos mesmos lugares de sempre. E volto para o quarto ansiosa pela chegada do próximo dia para fazer e sentir as mesmíssimas coisas.

No dia de regressar, choro (como sempre) compulsivamente. Apetece-me fazer uma birra (infantil) e gritar que não pode acabar. Não é pelo trabalho que me espera.

É por causa do tempo que teima em passar e é incontrolável. Acho que nunca lhes disse, mas sinto-me traída pelo ano que vou estar à espera por estes dias. E que nada me garante que estejamos todos outra vez. No mesmo sítio, nos mesmos lugares que ocupamos nas divisões onde a luz rompe. Perdi as defesas nestes dias. Sou só eu, orgulhosa das minhas imperfeições, e não aquilo que querem que eu seja.

E, talvez por isso, fique receosa, ou assumidamente, tenha medo.

IMG_20170628_162510_338

20170713_131334-01

IMG_20170709_220300_441

Processed with VSCO with j4 preset

IMG_20170701_182821

IMG_20170723_230451_366

Processed with VSCO with a2 preset

IMG_20170712_184203_472

Processed with VSCO with h3 preset

20170718_211227-01

IMG_20170722_085039_846

Processed with VSCO with 8 preset

IMG_20170709_124421_133

IMG-20170707-WA0012-01

IMG_20170720_203322_038

Processed with VSCO with e7 preset

IMG_20170717_133439_847

Processed with VSCO with c1 preset

IMG_20170719_193146_289

Processed with VSCO with h3 preset

Processed with VSCO with c2 preset

IMG_20170724_191058_926

Processed with VSCO with 4 preset

IMG_20170718_180957_901

IMG_20170624_211551

 

 

3 Comments
  1. Gostei tanto de ler este texto! Entendo muito bem esses sentimentos e o que a Raquel chama de medo, chamo eu frustração, por não conseguir segurar o tempo. Beijinho.

Leave a Reply

Your email address will not be published.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>