Um dia quero ser como a minha avó, e cantar, assim muito alto, porque estou feliz.

 

 

Esta semana foi mais uma lição.

A vida tem destas coisas, quando achamos que está tudo mais ou menos estável, ela puxa-nos o tapete. Dizem-me sempre que é mesmo assim, os equilíbrios e os desequilíbrios, e por mais que tente, inconscientemente estas palavras parecem-me mastigáveis.

Esta semana, a vida, como ela é na realidade (nua e crua) puxou-me o tapete.

Caí agarrada ao chão.

O coração da avó não pode fazer-me esta traição.

 

Ainda há uns dias contava-me que lá, na aldeia onde vive feliz, fizeram um evento para ensinar os idosos a pintar lenços. E que tinha pintado dois, porque o cansaço de costurar já é muito. Pintou 2 que guarda como tesouros na algibeira da sua saia negra.

Perguntei se iam voltar a repetir o evento.

Riu como só ela sabe fazê-lo: Filha, acho que não. Mas eu gostei tanto que vou continuar a fazer em casa.

Lá no sitio onde sempre foi feliz, e que espalha e contagia todos com a sua alegria de viver. Sempre foi assim, mesmo quando esta mesma vida não lhe oferecia doces na noite de todos os santos.

 

Na sua casa, carregada de histórias e viveres. Na janela para o pátio da sua pequena horta. Na braseira para aquecer o corpo. No cheiro a fumeiro. Nos cabelos longos brancos como a neve, entrançados junto ao pescoço. Nas mãos de quem trabalhou na terra, e que sempre sentiu o seu palpitar. Nas imagens emolduradas em “patine”. Nos passos firmes que mantém, com a dignidade dos 95 anos.

O coração não pode fazer-me esta traição. A mim, a ela, a todos nós.

 

Olhei para o computador com os olhos embaciados, é inicio do mês, todos sempre cheios de urgências, pedidos, solicitações, a caírem em catadupa.

Olhei e senti vergonha de mim mesma, de lhes dar tanta importância ainda há uns momentos atrás.

Olhei e pensei que a vida passa num sopro, e que ainda tenho tanto para dizer ao coração da minha avó.

Olhei e reflecti que isto tudo era só um grande equivoco. E que estou enganada em relação às prioridades.

 

Folgo em dizer-vos que o coração está estável, foi salvo pela ciência. A avó tem um coração que bate numa nova velocidade. Disse-me que no dia que fosse para casa, ia cantar no hospital. Disse-me que ia cantar alto. O mais alto que conseguia. Porque está feliz.

 

Olhei no mais fundo de mim, pensei que não fui traída desta vez.

Pior, que tenho sido a grande traidora da minha vida, por dar importância a pequenas coisas, detalhes, pessoas, momentos.

Um dia quero ser como a minha avó, e cantar, assim muito alto, porque estou feliz.

 

 

Raquel

 

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