Série AS CARTAS DO MEU MARIDO.

És 
Talvez na verdade 
um acto de amor e desamor 
entre o tempo e o espaço.
Uma ruga do momento com memória de nascimento.
Uma meretriz romântica, que não se vende
Que nunca se há-de vender
Por não estar cotada em bolsa
E não haver bolsa que a pudesse cotar.

És, nos dias de hoje, um submarino que nunca submergiu 
E que chora pelo fundo do mar.
Como um crustáceo sonha com as iguarias dos volumes,
Alimentado a ração por mãos pouco familiares.
Como se fosse possível sentir sem recordar…
Uma alusão ao frio feita de imagens dos livros
E alimentada pela animação da TV

És, o selo branco das emoções
Não das que queremos apagar
E para as quais sabemos a formula química da borracha.
A alquimia guardada no estojo de madeira, 
com tampo retráctil 
e uma entalha para o polegar,
mas de que se sublima na coroa esbranquiçada de um sorvete.

És, apesar do que te queiram fazer,
O livro que nos escolhe na biblioteca.
Sem importância para a indisponibilidade de ires connosco para casa.
De alguma forma fizeste dessa impossibilidade o teu rosto
E o mesmo deu outra cor a todos nós.
A impossibilidade positiva também tem pátria.
É dura e doce e faz-se de lembranças cumpridas ou por cumprir.

És tu.
E não é opção a forma como nos estás agarrada à pele.
Como sempre que um povo respira te fazes ouvir
Quase sempre na ausência de tão feminina que és.

És tu.
Uma fornalha positiva que se desdobra 
na equação, entre todos os tempos verbais e o nosso lugar.
Uma pequena morte que nos faz renascer.

És…
E não interessa o teu sabor tradicional
Que às vezes se ama e outra tantas se odeia.
Uma espécie de coentros no norte e tripas no sul.

És e tens o dom de nos debruçar sob e sobre nós.
Uma aparência de casa a quem se deu nome de menina.
Saudade…”

João Murillo

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