Hoje faço 42 anos.

 

Parece que foi ontem.
Aquela ansiedade de querer ser “adulta”, na única altura em que o tempo corre devagar, no quarto arrumado com os cuidados da minha mãe.
Olhava para o tecto e em mim eclodiam todos os sonhos de um caminho que se chama crescer.
Parece que foi ontem.
A sensação do tudo, e ainda por acontecer. O futuro que não cabia em lugar nenhum, quanto mais num só coração.
Planos e mais planos preenchidos, muitas vezes de certezas, e outras tantas do seu contrário.
Parece que foi ontem, ouvi tantas vezes que uma senhora não revela a sua idade.
Parece que foi ontem, mas tal como hoje continuo a acreditar nas coisas à minha maneira.
Hoje, faço 42 anos.
Há na realidade muitas diferenças entre as minhas expectativas e esperanças, que acalentei ontem, e o que realmente foi, o que realmente é (até este momento).
Muitas ilusões transformaram-se num passe de mágica em desilusões. Em contrapartida surpresas muito positivas.
Continuo a “trabalhar” para aceitar aquela passagem que todos temos como inevitável. A finitude. Não me conformo facilmente, e tudo isso me remete para o sentido da vida.
Já adulta, ouvi a primeira vez em discurso directo, pelos responsáveis de eu ter vida, que a mesma não é justa.
Congratulo-me pela coragem que tiveram em assumir, pois eu serei sempre a criança que os meus pais irão sempre proteger, como sabem, como podem, este caminho nem sempre nos reserva momentos só bons.
É a verdade. Aquilo que o mundo tem na consciência mas que nega saber.
Hoje que faço 42 anos.
Acho que já vivi muito em pouco tempo, e tenho esta dificuldade pueril em entender como passou tanto tempo, que me parece pouco.
Tem sido intenso, porque eu também não sei ser de outra forma. De uma maneira solitária, audaz e afiada.
Mas no final do dia e ao fazer o balanço, todos os momentos na ousadia do silêncio, sem excepção foram importantes. E sou uma privilegiada.
Vou do presente ao passado, e com olhos no horizonte escuto o futuro.
E sim, a vida pode ser espantosa ou desconcertante. Mas sem dúvida só faz sentido, se for sentida.
Hoje faço 42 anos, e não me importo, não me importo muito. Não quero desperdiçar um dia por causa de uma contabilidade em que se somam dias e se multiplicam horas, porque isso me iria dividir, e em simultâneo subtrair o que mais prezo.
Sim, hoje faço 42 anos.

 

Raquel

 

Imagem de Andy Dyo

 

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