Às vezes os gatos também morrem

Nota introdutória: este texto foi escrito na noite de dia 5. Estive a pensar se o devia publicar, o que pretendo é passar uma mensagem de esperança, apesar da tristeza que ainda me rasga o coração.

 

Às vezes os gatos também morrem.

Nunca há uma altura boa para a morte, e seis andares nunca são escolhidos. São uma merda de uma fatalidade. Uma inevitabilidade, talvez. Pode ter ser sido uma ranhura duma janela, um quintal com acesso a terraços, uma natureza que os faz ir mais longe… enfim uma desventura, ou uma infelicidade, qualquer, quem sabe?… Fiz anos hoje … E ele morreu nos braços do meu marido. O escroto tem aquele torpor quase medonho.

O João tinha acabado de escolher um bolo de aniversário, voltava feliz a casa. Naquele andar e tropeçar que é só dele.

O cenário mostrou que algo de errado tinha acontecido. Muita gente à porta, eu a tentar socorrer o mundo.
Um gato, que não sei o nome. Esteve imóvel, num parapeito de um sexto andar desde as 9 até às 19, à chuva… imóvel. Quem viu não suportou, chamou os bombeiros. Tudo fizeram para o salvar, mas o seu medo e as circunstancias, fizeram com que caísse de um sexto andar. Tentámos tudo, marcha de urgência, uma caixa improvisada com a ajuda dos bombeiros. Graças ao meu tio do coração, Francisco Assis, uma equipa inteira à sua espera, mas ele morreu nos braços do meu marido.
Todos tentámos tudo, mas nem sempre o tudo é suficiente.
Era bem tratado, bonito e doce, como todos os animais bem tratados. Algo não correu bem e ele deixou-nos hoje, abraçado ao João. Não fica mais fácil por não o conhecer, por não saber o seu nome, quando vi no seu pêlo tantos mimos.
Dói! Mas redobra a minha esperança na raça Humana, não em todos, mas nos que abriram caminho na marcha de urgência, nos que têm sentimentos de culpa por tentar ajudar, nos que não o conseguiram salvar (onde me incluo), e no telefonema do bombeiro à noite na procura de boas notícias.
Disse-me que lidava todos os dias com a morte, e por isso, a esperança na vida tem uma importância maior.
Doeu, magoou, é difícil de ultrapassar, mas renovou a minha esperança em nós, na Humanidade. Estou triste que tenha sido à custa da vida de um ser vivo que não fazia mal a ninguém. Mas a lição que tirei é que os bons são mais que os maus. Tirando dois filhos de uma meretriz que não abriram caminho e ainda fizeram gestos impróprios, todos os outros foram Humanos. 
Não chegámos a tempo, fizemos tudo para chegar. 
Espero que a Humanidade tenha mais sorte… que a do gato, bom, que hoje morreu no colo do meu marido.
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