Quando se fala de fertilidade, ninguém se devia pôr em bicos dos pés.


 

Para reflexão:

Há assuntos que gostaria, mesmo, de não os abordar.
Porque isso ilustraria que eles não existem, que não tinham ocorrido. Mas quando acontecem, sinto-me com a obrigação moral de reflectir sobre eles e dar conta da minha opinião.

Portugal é um País relativamente pequeno e dificilmente as pessoas que fazem, ou fizeram, televisão não se conhecem, ou não estiveram já juntas em várias circunstâncias. Este facto, em si, torna mais doloroso o propósito de comentar assuntos que foram gerados por pessoas com quem já privámos, mas também aumenta a nossa tristeza por essas mesmas pessoas serem responsáveis por episódios de intolerância e responsáveis pelas linhas que agora escrevo.

 

Já assumi, publicamente, que dificilmente poderei procriar, é um processo pessoal que tem implicações e dor associado. Algo que exige trabalho no sentido de reduzir o sofrimento que daí advêm, razão pela qual não me quero alongar sobre tema. Mas não se enganem, não me torna menos apta para ser mulher, ou mãe. A incapacidade de procriar não tem rigorosamente nada a ver com a capacidade de criar.

 

Vejo, com bastante preocupação e alguma perplexidade, que há pessoas que por terem procriado e criado consideram as outras menos “habilitadas” para darem a sua opinião sobre a maternidade e as opções que a ciência e o progresso colocaram à disposição de mulheres que têm problemas de procriação. Pior, que o fazem de uma forma rude, maldosa até, e num misto de arautos morais e mentes muito “para a frentex”, escondidas atrás da palavra frontalidade.
Quero referir que frontalidade não é agressão, falta de educação, demonstração de intolerância ou apelo a qualquer tipo de agressividade, frontalidade é defender com educação e elevação as suas convicções (mesmo que erradas), não ultrapassando os limites em que se agride e violenta as convicções e princípios dos outros.

Este é um dos mais perversos sintomas da sociedade de hoje, uma confusão brutal sobre a linguagem utilizada e a correspondente nomenclatura, e atenção normalmente quando acontece vem junto de um “mostrar os galões” enaltecendo os seus currículos ou os seus vastos recursos académicos e linguísticos.

Lamentavelmente todos esses predicados esbatem-se quando se constata a dura realidade dos factos.

Mandar calar, ofender, endereçar alguém para o psiquiatra, é uma ofensa, nada tem a ver com frontalidade, pelo contrário tem muito a ver com falta de argumentos, ou dificuldade em expressá-los. Nestes assuntos não basta uma pose “cool” e “despachada”, porque são apenas uma muleta que se fracciona perante os actos.
Propositadamente, não quero citar nomes, pois o objectivo não é criar mais uma polémica ou ofender quem quer que seja. O meu objectivo é apelar à tolerância e também à reflexão. O assunto da crescente diminuição da fertilidade feminina e das consequências, dolorosas e por vezes dramáticas, que daí ocorrem para quem padece dessa limitação, é um assunto sério que deve ser tratado com civilidade.

Não o fazer revela sempre mais sobre os prevaricadores do que sobre quem sofre dessa incapacidade. Infelizmente com o propósito da polémica e de uma maior exposição, há muita gente que se esquece. Eu lamento que assim seja, tanto quanto as razões que me levaram a este desabafo.

14 Comments
  1. Li com perplexidade a sugestão feita para consultar o psiquiatra, pois como disse a Raquel e muito bem tal sugestão é realmente ofensiva e de todo tem a haver com frontalidade, realmente muito baixa da parte de quem o fez, mas a falta de argumente dá origem à ignorância muitas vezes e é o que se passou. No caso da Kim, eu que sigo o programa, pelo menos o que foi passado no mesmo, o recurso a barriga de aluguer, prende-se a um caso de saúde que poderá ser fatal para a mesma caso voltasse a engravidar, mas ela queria muito te um terceiro filho, não vejo qual é o mal. Muitas mulheres que são mães tal e qual como a Raquel refere, acham-se no direito de opinar em muita coisa, inclusivé na decisão de outras serem ou não o serem por motivos pessoais (vontade de ser ou não mãe) ou por motivos de saúde que as incapacita para tal. Pois bem eu sou mãe, não sou Deus, não sou mais nem menos que as que não o são, seja porque motivos for. A minha avozinha já dizia “vozes de burro não chegam ao céu” e este é um exemplo desses, não se sinta afetada pois só nos devemos sentir afetados por algo ou alguém superiores a nós, e não me parece que a situação tenha sido causada por alguém superior a si, pelo contrário, mostrou ser uma pessoa inferior de espírito e inferior em empatia para com os problemas e decisões alheias.

  2. Um testemunho e uma opinião que acrescentam. Que sirvam de exemplo e inspiração para a tolerância a que todos nós deveríamos estar “obrigados”, especialmente em questões sensíveis como esta.
    Cada pessoa é única e a falta de informação ou opinião diferente não podem justificar a forma como nos expressamos.
    Mais respeito, informação e tolerância. menos arrogância e agressividade.
    A nossa opinião vale tanto como a dos outros, a verdade pode ser muita coisa. é a de cada um.

  3. Querida Raquel,

    Reflexão muita bonita e profunda. Concordo plenamente consigo.
    Não tive oportunidade de ser Mãe, não sei se vou ter… mas também, não gosto de conceitos pré-concebidos. Não há uma regra certa de que é preciso ser Mãe biológica ou não, que nos tornaremos melhores Mães.
    Isso é mais do que certo!
    Um bem haja!
    Cândida

  4. A intolerância está de certa forma do seu lado, já viu bem a formo como a adjetivou?. Pelo facto de uma mulher não ser mãe, torna-a menos apta para emitir opiniões relacionadas com a maternidade? Sim, mas apenas nos aspetos relacionados com a criação dos filhos. Tenha calma e vá tentando, nunca se sabe se a cegonha um dia aterra em sua casa. Vá levando uma vida o mais saudável possível, dormindo e alimentando-se bem….

  5. Um grande abraço de parabéns Raquel, por este belíssimo texto.
    Assisti à Passadeira porque gosto muito da Joana Latino, e fiquei para além de chocada com o que a Luísa Castel-Branco disse. Aliás não foi esta a primeira vez que essa senhora me tirou do sério. Talvez o “prazo de validade” dela esteja já ultrapassado e obrigue a um refresh da Passadeira!

  6. Parabéns pelo seu texto.
    Vi a situação a que se refere: uma aberração no que diz respeito à total insensibilidade e ausência de respeito. Fico perplexa de como isto é proliferado em televisão.

    Haja bom senso,

    Marta Costa

  7. Raquel, partilho consigo o problema da fertilidade e também podíamos dizer que “só quem passa por isto pode falar de infertilidade e se é assim tão despropositado recorrer a todos os meios disponíveis para ser mãe!”.
    Fiquei muito sensibilizada pela sua dignidade e elevação ao falar de um assunto tão doloroso que nunca é realmente ultrapassado, mas que não nos inferioriza.
    Infelizmente, os haters existem em todo o lado e é-lhes dado espaço para destilarem opiniões maldosas.

    Luísa

  8. Maternidade não é uma questão biológica. Encontrei o seu texto por acaso. Meu maior sonho é ser mãe. Sei que isso um dia vai acontecer, seja por meio de uma gravidez ou de uma adoção. E minha maior preocupação é poder passar ao ser humano que eu vou ter o prazer de criar uma atitude tão íntegra, confiante, nobre, honesta, elegante, serena… como a que a Raquel expressou nesse texto. Sou brasileira, por isso pouco conheço da sua trajetória profissional, mas agora passei a admirá-la muito como pessoa e vou buscar conhecer mais seu trabalho. Mais uma vez : maternidade não é uma questão biológica, então não sofra. Tudo acontece por um motivo.

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